17 de mar. de 2009

A volta do que não foi.

A minha volta será num dia marcado. Que é pra dar mais ansiedade.
Será um dia frio.
Eu estarei apressado. Eu sempre vivo apressado, ocupado. Gosto de me sentir mais um na multidão, aquela coisa urbana, à la "ninguém sabe, ninguém viu". Coisa meio cosmopolita, meio Nova York.
Eu estarei num vôo atrasado. Preciso mostrar importância. Jamais uma pessoa importante chega no horário marcado.
Haverão alguns amigos me esperando ansiosamente no saguão do aeroporto, sonolentos, em decorrência da quantidade de horas aguardando arduamente.
Eu estarei calmo. Sereno e com um ótimo auto-controle.
Minha mãe róe as unhas. Meu pai lê um artigo qualquer em uma revista qualquer.
Minha irmã ajeita o cabelo de uma forma compulsiva.
É chegado o momento. Eu entro no saguão.
Completamente diferente e com uma aura diferente. Eu consegui atingir uma coisa que as pessoas costumam rotular de 'Auto-Cotrole'. O meu tão almejado Auto-Controle.
Estou trajando uma camiseta verde musgo, calças pretas de brim, um par de tênis de couro branco (ainda não decidi a marca), eu estarei carregando um casaco pesado marrom, algum livro qualquer de algum escritor russo, um copo de café e um maço de cigarros, eu estarei sem nenhum piercing (piercing é muito adolescente, e eu estou em um nível superior)meu cabelo estará grandinho e um pouco 'propositalmente-bagunçado-pelo-vento-da-pista-do-aeroporto'.
Eu estarei com cara de tédio, e indiferença a todas aquelas pessoas. Eu finjo não me importar com nenhuma delas, nem com nada que tiverem a me dizer.
Eu ouvirei exclamações do tipo: - Nossa, você está ótimo! - seguidos de gritinhos de: - Como você emagreceu!
Eu darei um breve sorriso. Não posso demonstrar muita empolgação. Eu realmente mereci ouvir aquilo e no fundo eu esperava que todos dissessem isso.
Eu continuo andando enquanto uns me seguem e ficam perguntando incessantemente: - Como foram esses anos em Nova York? - Eu respondo: - Foram bons. (Somente)
Caminho lentamente até onde minha mãe está parada, me fitando emocionada. Ela coloca as mãos no meu rosto, a bochecha afundada devido à ausência de alimentação, e diz entre lágrimas: - Meu filho, você está com rosto de doente.
Eu sorrio pra mim mesmo. E por um instante fico feliz. Quero passar a impressão de 'abandono de corpo, minha vida pertence à arte apenas'.
Tipo, foda-se meu corpo. Minha alma é mais importante que essa carcaça velha que carrega meus ossos.
Eu tiro um celular do bolso e digito um número. Passado alguns instantes chega um táxi. Eu me movo vagarosamente até a sua porta. Sem dizer uma só palavra de 'Adeus' ou 'Obrigado' entro no automóvel e fecho a porta.
...

Abro os olhos e vejo apenas o meu teto mofado.

2 comentários:

Anônimo disse...

nossa.. como ele está magro. parece doente!!! hahahahaha eu riria muito se essa cena se consolidasse. qualquer dia eu faço um texto descrevendo a minha volta do intercâmbio no méxico (intercambio no méxico é hype)

Menino_ disse...

Já imaginei uma cena EXTREMAMENTE parecida... só muda o figurino, e o destino (Londres ou Paris... moda, you know...), mas não vai mais se consolidar.
Por quê? Porque eu já estou com cara de doente, segundo todos ao meu redor. Adoraria ver o que eles vêem.
:~

Saudades de ti. Nem te conheço mas já te amo, bem nessas sabe? Enfim...
:*