15 de ago. de 2011

The Sun and I

A cidade parecia assustadoramente assustadora quando estava sol. Eu ficava ali parado naquela janela enorme, olhando para baixo, fingindo ser superior e disfarçando o medo que eu sentia de altura, e sobretudo das pessoas que habitavam aquele lugar, e da forma como o sol, o asfalto, o calor e a multidão se tornava um só naquele clima escaldante. Gostava de ver as distorções causadas pelo calor. Eram bonitas.

Eu ficava ali o tempo todo, uma tarde, duas tardes, todas as tardes, fumando um cigarro atrás do outro e sendo triste naquela janela. Já não fazia diferença. As pessoas já não perguntavam mais o que acontecia, o meu psicólogo já não se surpreendia com coisa alguma que eu dissesse, a minha avó não mais me dava conselhos e o meu telefone nunca tocava. As vezes alguém vinha à minha porta me entregar alguma coisa, algum alimento que eu - medrosamente - pedia pelo telefone. Era a minha maior forma de interação com o mundo. A única, talvez.

As vezes eu descia, sentava no banco do parque e ficava horas observando as folhas das árvores caídas, já vermelhas, amarelas e em tom alaranjado. Gostava da forma que elas se misturavam com as cores do por do sol. Gostava do por do sol em geral, aliás. Era um sinal de que a noite estava chegando e eu poderia ficar dormindo. Me desligar um pouco. Os sonhos costumavam ser bons. Talvez fossem os meus desejos de felicidade reprimidos se espalhando pelo universo do meu subconsciente.

Eu costumava ouvir a mesma música todas as noites, antes de dormir. Uma letra simples sobre amor frustrado. É o que todos gostam. É a música que faz sucesso. Mas não importava por que isso não me fazia diferença. Era apenas uma ponte de ligação entre o eu e o mundo.

Mas isso também não fazia diferença.

Um comentário:

LubaLuba disse...

Essa distorção do asfalto me dá um nervoso, mas um nervoooso !
Não sei explicar. Parece que vai tudo derreter e eu vou desmaiar e acordar no sertão nordestino, naquela seca seca seca e morrer sem ar.