A primeira vez que a vi, foi quando eu tinha 17 anos. Ainda estava morando com os meus pais em Detroit e tinha uma certa fixação por ela. Jeito meigo de ser, cabelos louros sempre presos para trás num coque e sua roupas em tons pastéis. Nunca troquei mais do que dez palavras com ela, mas eu sabia que ela sabia que eu a amava. Nos encontrávamos frequentemente na escola, dando encontrões meio propositais, meio sem querer. Eu fazia de tudo para chamar a sua atenção e ela sempre sorria. Apenas sorria. Passei a detestar aquele sorriso. Nunca tive coragem de me declarar à ela e com o tempo, a paixonite juvenil e platônica caiu na lembrança. Algo como uma estátua, que você sabe que está ali parada, mas que não pode fazer nada sobre,
O tempo passou e eu decidi de uma hora para outra, me mudar para Santa Monica. Havia recebido uma proposta de cantar em alguns bares da cidade. Junto a mim, levei apenas a minha velha guitarra azul turquesa e algumas peças de roupa. Não precisava mais do que isso. Peguei o velho mustang da família e me mandei, deixando aquele rastro de poeira pra trás. Não queria mais ficar em Detroit, as pessoas me enojavam e eu estava numa fase criticamente entediante. Estava afim de emoções novas. No velho rádio amadeirado do carro, tocava alguma melodia muito triste, o que me obrigou a acender um cigarro e cogitar parar em um bar perdido a esmo. Estava na famosa Rota 66. A tão temida rota 66. Logo de cara, dei uma olhada em volta. Tentei observar o interior do bar e, de certa forma, não me ofereceu nenhum perigo que me fizesse desistir de entrar. Um Ford vermelho antigo me chamou a atenção. Estava estacionado de uma forma muito torta, e o rastro no chão de terra seca que o seguia, podíamos deduzir o que havia sido uma bela estacionada. Ao me encontrar de frente com a porta de madeira e vidro do bar, pude ver um chiclete rosa colado em um dos vidros da frente.
Ao entrar, dei uma bela olhada em volta e não vi nada que me chamasse a atenção. Panquecas com mel e um copo de vodka. Na hora, simplesmente, não passou pela minha cabeça que não era uma mistura sensata. Mas eu estava pouco me fodendo para combinações certas e erradas. Daqui para frente tudo passou, ou muito lentamente ou muito rapidamente, ainda não posso afirmar com tanta certeza. Só sei que tudo pareceu parar de vez e eu tinha sido hipnotizado pela imagem esguia e de cabelos louros que se dirigia, decidida, ao balcão do bar. Neste momento fui interrompido pela chegada das minhas panquecas e minha vodka. Larguei de canto e não atenção a elas. Só conseguia me perguntar: Será? Será? será? Não podia ser. A fisionomia, o jeito, o andar eram idênticos, até mesmo os traços do rosto eram muito parecidos. Será?
Era loura, cabelos crespos e muito armados (o que lhe deixava com um ar muito selvagem), magra e com uma altura considerável, suas roupas coladas de couro preto, o cigarro que carregava pendurado nos lábios cuidadosamente pintados de roxo escuro, suas tatuagens de teia de aranha nos cotovelos e seu ar entediado. Tudo isso era o oposto do que ela fora, isso se considerarmos que seja ela. Fiquei parado alguns longos segundos, meio de boca aberta. Até que a figura misteriosa largou algum dinheiro no balcão. Foi até a mesa e apanhou o maço de cigarros que repousava sobre o tampo gelado e seguiu para fora do bar. Sem pensar, caminhei depressa até a porta, observando ela entrar com estilo no carro, retocar o batom e ligar o rádio do carro, meio fora de sintonia, meio alto e ligado em algum metal com letra satânica e se arrastar para longe dali, sob o sol forte que fazia e sob a nuvem de poeira que se levantou quando o carro de moveu. Eu ainda continuei parado e sem saber o que fora aquilo. O que aquilo significava? Em nenhum momento ela olhou para mim, pelo que eu observei.
E eu ainda continuava me perguntando: "Será?"

Um comentário:
gostei.
acho que você tem talento. sério.
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