Ficou ali parado, em meio àquela bagunça toda, certamente se perguntando por onde deveria começar a mexer. No canto, apoiado ao batente da porta da pequena sala acarpetada havia um segundo homem assistindo a tudo aquilo, perplexo e com um ar tenso pairando sobre a sua cabeça.
O primeiro estava à beira de lágrimas e fazia gestos desesperados enquanto tentava inutilmente desdobrar as orelhas de uma carta que estava em cima do móvel cor marfim, comprado em uma loja popular e barata. A janela estava aberta e exibia um lindo dia ensolarado. O segundo homem a observava com o olhar perdido, provavelmente pensando que um dia ensolarado como aquele não condizia com a situação em que estava tentando lidar. O primeiro homem juntou algumas mudas de roupa dentro de uma mala, jogando-as agressivamente em seu interior. O segundo homem fitou o seu rosto e disse por fim, depois de tanto silêncio:
- Você realmente deseja ir embora daqui? perguntou baixinho, como se o tímpano do segundo homem fosse estourar ao ser penetrado por um som com o tom levemente elevado.
- Sim! Decidi e você não vai mudar a minha idéia...a frase foi abafada pela metade, interrompida por um choro demente.
- Levante essa porra de cabeça! olhe pra mim! Como você pode me deixar depois de todo esse tempo?! - perguntou um deles, revoltado diante da atitude do outro.
- Eu nunca gostei de você de verdade, e eu realmente preciso ir embora. É uma perda de tempo ficar aqui.
- Você me considera uma perda de tempo? Sempre foi assim?
- Sim.
Virou as costas, carregando uma mala e deixando uma bagunça infernal na sala. O outro apenas continuou olhando pela janela, ao mesmo tempo em que acendia um cigarro com certo tremor nas mãos. Os cachorros latiam lá fora. E ele agradeceu aos deuses por isso, aquele silêncio matador era terrível. Ouviu-se um bater de porta e o barulho de passos se afastando. O joelho cedeu e ele caiu ao chão aos prantos. A cachorrada ainda latia lá fora, mais forte do que antes.
5 comentários:
Seria mais legal se no fim ele escorregasse pela parede até cair de bunda no chão
é só ficção, né?
Dói demais.
Sim, é ficção.
bom te ver sempre
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