10 de jul. de 2009

Os fios interligados que percorrem os canais humanos

Estava sentado no Frans Café, de madrugada. Simplesmente ali, esperando o tempo passar para ir trabalhar - assim pela manhã - e ao mesmo tempo desfrutando da presença agradável da amiga cowy. Discutíamos acaloradamente sobre o motivo real que move uma amizade, chegamos à conclusão de que a amizade nada mais é do que um jogo de interesses, que consequentemente pode gerar um afeto maior. Observo ao lado e reparo que existe um rapaz sozinho - aparentemente muito louco - degustando singelamente um pão na chapa e uma xícara fumegante de café ou cappuccino, não sei bem - tenha em mente que ainda são quatro da madrugada, aproximadamente. Eis que estamos lá, ainda discutindo sobre o significado real da amizade e temas profundos da vida, quando o rapaz vira e diz algo que eu não entendo de cara. Ele escutava a nossa conversa e se sentiu na liberdade de se intrometer. Eu ficaria irritado em condições normais, mas resolvi não ignorá-lo e até chamei ele para sentar conosco. O que foi acatado mais do que depressa. Ele era baixo, louro com cabelos arrepiados e falava de um jeito meio maníaco, com um sotaque estranho. Perguntamos à ele de onde ele era. Ele nos relatou a sua história e descobrimos que aquilo não era um sotaque. E sim uma sequela de algum acidente - reparei que ele tinha alguns hematomas, aparentemente de cirurgias pelo corpo todo. Por alguns instantes achei que ele tivesse algum problema mental, em alguns momentos ele agia como tal. Mas conforme a conversa foi se desenvolvendo, ele se mostrou uma pessoa muito inteligente - inteligente e carente na mesma proporção, o que me causou uma certa pena no primeiro momento, tendo em vista a história que ele nos contou, mas confesso a vocês que essa pena deu lugar a um certo carinho. Você deve se perguntar: - como você pode sentir carinho por uma pessoa que você conheceu a poucos minutos? Mas deixe-me explicar. Sabe aquelas pessoas que você olha para o rosto e lê a palavra "CARÊNCIA" "ATENÇÃO" e isso é tão gritante que você simplesmente decide que quer cuidar daquela alma? Pois é, isso nunca havia me ocorrido antes. Ele se mostrava realmente à vontade e contente por estar no meio de nós. O que me deixou até feliz, não é todos os dias que eu tenho a oportunidade de fazer algo oualguém. Imaginei que ele seria o tipo de pessoa que não tem amigos. Não por falta de simpatia ou algo do tipo, simplesmente por algum medo ou trauma interno. O que justificava a inteligência e o vasto repertório literário, já que uma pessoa que não tem amigos procura outra alternativa de se divertir, entreter...enfim, a dele - acredito eu - é a leitura. Ele citou livros que eu jamais ouvi falar ou jamais tive alguma pretensão de ler. Não por ser ignorante e fechado, mas por simplesmente não ter acesso a tais materiais. Ou mesmo por desconhecer completamente a existência. Nunca fui adepto da leitura chamada, muitas vezes pejorativamente CULT. Mas tenho uma boa bagagem de livros diversos. Afinal uma leitura NUNCA é inútil. Enfim, reparei que ele não tinha amigos. Ele estava voltando de uma balada - a funhouse - e chegou no café completamente sozinho, e aparentemente não esteve com ninguém naquela noite. Pensei: que triste.
Passamos alguns poucos minutos conversando sobre músicas e livros, até que somos interrompidos por um: Bom Dia! - extremamente sonoro. Respondemos e nos apresentamos na mesma hora. No primeiro momento essa pessoa me chamou a atenção pela beleza, aquele tipo de beleza implícita, que está presente num simples traço do rosto que você nunca sabe muito bem como explicar e sabe menos ainda onde exatamente está essa beleza, você sabe muito menos ainda se ela está lá. Nesse momento estávamos conversando sobre escrever. E esse rapaz - já com jeito de maduro e com ar muito misterioso - nos informou, com um leve desdém na entonação, que ele escrevia também. E mais, tirou um caderno de anotações da mochila e leu algumas poemas e prosas pra gente. Me surpreendi com a qualidade do material dele, claro que eu observei alguns errinhos básicos de concordância, mas ainda assim a qualidade era inegável. Eu fiquei levemente - observe, LEVEMENTE - irritado com o fato de ele aparentar querer ser superior a nós. Ele falava com um certo desprezo na voz, como se cada palavra daqueles poemas fossem irrelevantes e nós éramos ignorantes cretinos que babavam com qualquer texto idiota. Pensei comigo mesmo que ele não podia desenhar como eu. Ri pra mim mesmo.
Ele nos informava com certa petulância sobre ter feito faculdade de direito na PUC, ter vinte e três e não trabalhar. E ainda assim, comer putas e beber café com o dinheiro dos pais. Eu não costumo gostar de gente assim. Mas alguma coisa nele me causava uma certa atração. Não sei bem o que era, mas eu senti que era o tipo de gente que nos convida por pura brincadeira a decifrá-lo. Mas que jamais deixa pistas de qualquer coisa.
Já estava quase amanhecendo. Eu ainda precisava trabalhar e eu já estava cansado da companhia deles. Até que o garoto numero um lança uma pergunta, um tanto inusitada [super querendo polemizar]: Se toda amizade tem um interesse, porque você está aqui conversando com desconhecidos? - Lançou essa pergunta no geral.
Eu respondi que estava apenas esperando a hora de eu ir pro trabalho, e achei que seria agradável passar essas horas ao lado de pessoas inteligentes - que iriam me acrescentar algo, expliquei que eu não tinha a mínima intenção de ser amigos deles. Eles não fizeram cara de perplexos, ao que eu supus que eles já imaginavam certa resposta.
Estava de manhã, finalmente. Pagamos a nossa conta e seguimos - os quatro - juntos até o cruzamento. Na hora da despedida, o garoto numero um foi dar um abraço no garoto numero dois. O garoto numero dois esquivou-se com uma rapidez incrível. O garoto número um ficou com cara de desentendido e explicou que gostava de abraçar as pessoas - CARÊNCIA, EU SABIA! - e eu fiz questão de dar um abraço naquele ser necessitado. Claro que um abraço à la Praguejento [quem me conhece sabe do que estou falando] mas, porra! ainda assim era um abraço. Eu senti vontade de pegar e cuidar desse serzinho - leia-se sem conotação erótica NENHUMA fazfavor.

Passado o momento despedida, cada um seguiu seu caminho. Sabendo que nunca mais se viriam novamente - e muito provavelmente.
Engraçado como a vida nos oferece momentos quase íntimos com pessoas, e segundos depois essa pessoa se vai e você sabe que não tornará a vê-la e você nem pretenção tem.
Fiquei pensando...se eu tivesse ido dormir no hotel, que era o plano inicial isso não teria acontecido, se eu tivesse optado por outro café ao invés de outro eu teria sido poupado de conhecer duas pessoas incríveis - incríveis no sentido de diversidade, no sentido de ser humano essencialmente. É nessas horas que eu acredito em destino, em que nada é por um acaso. As coisas simplesmente acontecem e elas são ligadas umas às outras. Naquele momento um pequeno fio de ligação entre eu e aquelas pessoas foi estabelecido e ele não irá se soltar jamais. Uma vez o contato feito o elo estará sempre lá. Esquecido as vezes, mas ainda assim presente. Imagino o tanto de fios que tenho ligados à pessoas, muitas vezes um simples olhar cria um elo com alguém. Eu acredito nisso. Você deve estar pensando: Ele deve ter cheirado uma bela duma carreira de pó pra estar falando isso. Mas faz todo o sentido pra mim.

O elo entre seres humanos é algo indiscutivelmente incrível.

2 comentários:

cowy disse...

conseguiu sintetizar bem o que foi o encontro com os dois seres estranhos. :)


foi divertido, né?

Menino_ disse...

O elo entre seres humanos é algo indiscutivelmente incrível. [2]

E eu me vi na pessoa numero um (na personalidade, claro.)

;x